Bahia das Artes

Com um cenário artístico vivo, diverso e cheio de perspectivas, mercado de arte baiano é alternativa para quem deseja investir com segurança.

Por Joseanne Guedes

Ahh! A Bahia. Da Bossa Nova de João Gilberto, da poesia de Castro Alves, da literatura do itapariquense João Ubaldo Ribeiro, do cinema pioneiro de Glauber Rocha. Nosso estado tem filhos ilustres na arquitetura, desenho, escultura, pintura, dança e teatro. Desde o século XVII, os artistas baianos mostram, nas artes plásticas, fusões emocionantes e novas perspectivas sobre a sociedade. A Cidadelle conversou com artistas sobre suas experiências e profissionais que atuam no mercado local de arte, ou em instituições culturais, para entender os significados múltiplos da obra de arte na contemporaneidade e as potencialidades do setor.

Conhecido como “Picasso do Povo”, o artista visual baiano, Bel Borba, tem sido destaque na imprensa internacional. Ele já estampou os grandes telões da Times Square, em Nova York, e acaba de entregar ao Paseo de Recoletos, em Madri, uma escultura permanente de 900kg de bronze em homenagem aos refugiados. “A minha obra é minha maneira de circular dentro do circuito cultural”, disse. Uma produção permanente e coesa evidencia a maturidade do artista. “São 50 anos de experiência. Produzo geralmente 21 telas por ano, com ou sem demanda de mercado, com ou sem exposição marcada. A arte tem que traduzir e representar a vida, nossa existência. Arte sem alma é mero entretenimento”, afirma.

Identidade – Quem entra no salão do Restaurante Amado, referência da alta gastronomia em Salvador, se depara com o Tridente de Exu, um totem assinado por Gustavo Moreno, em alusão ao orixá. A obra sintetiza uma característica marcante do artista hiper-realista. “O meu trabalho fala da minha cidade, cruzo a arquitetura vernacular, local com a religiosidade. É uma colagem das experiências por mim vividas no tempo e na influência do religioso que minha cidade proporciona, em busca de identificações”. Filho de Tatti Moreno e Mimi Fonseca, sua história com a arte começou cedo. “Cresci vendo minha mãe pintar e meu pai esculpir”, diz.

As obras de Gustavo Moreno compõem o acervo da Paulo Darzé Galeria, um requisitado espaço com mais de três décadas de atuação, dedicado a artistas contemporâneos nas suas mais variadas expressões, linguagens e técnicas. O diretor da instituição, Paulo Darzé, avalia o panorama do segmento na Bahia. “A produção artística ficou mais consistente, com um mercado mais profissional, uma crítica com uma atuação mais decisiva e um público mais receptivo”, enfatiza.

Nas exposições temporárias individuais, coletivas e mostras permanentes, Darzé traz obras do gênio Aurelino dos Santos com suas formas e cores, além de outros talentos, como Mario Cravo Neto, Tunga e Vauluizo Bezerra, e artistas de trajetória mais recente, como Cristhian Cravo, Caetano Dias e Yuri Sarmento. “A arte representa a declaração mais viva sobre a história do homem, o depoimento mais verdadeiro do aqui e do agora”, destaca o marchand.

Hábitos culturais – “O papel da arte em qualquer tempo é o de provocador e propositor de ideias capazes de estimular a percepção humana”, salienta Ricardo Portela. Há 12 anos, ele comprou obras que foram oferecidas por um amigo, com interesse de começar uma coleção particular. Por acaso, vendeu uma delas e obteve um bom lucro. “Comecei a frequentar galerias, leilões, além de consumir leituras relacionadas”, afirma o filho da artista plástica Márcia Portela. Até os oito anos de idade, o atelier da mãe era como o quintal de casa.

Segundo Portela, para o mercado de arte ser exuberante não depende só dos esforços dos galeristas. “É necessário uma sociedade que desfrute de hábitos culturais, de políticas públicas de arte, museus atuantes com recursos para incentivar a produção e programas educacionais nas escolas”, defende. Em suas duas lojas, uma localizada no Caminho das Árvores, em Salvador e a outra em Feira de Santana, seu acervo conta com artistas representativos do modernismo e da arte contemporânea, como Carybé, Bel Borba, Alba Vasconcelos, Zivé Giudice, Mário Cravo Júnior e Calasans Neto. Ricardo Portela ressalta a necessidade de valorização dos nossos expoentes. Para ele, o pintor, desenhista, gravador e escultor Mario Cravo, foi o mais instigante e provocador dos artistas da modernidade na Bahia.

“Ele produziu com excelência em todas as categorias da expressão visual, mas, pela monumentalidade das suas obras, destacou-se como escultor”, analisa. “Uma obra vigorosa, de força expressionista, que prospectou sentimentos do seu povo, aludindo às vivências, aspirações, religiosidade e histórias libertárias da Bahia. Mario conversou com o mundo”, destaca. A grandiosidade do trabalho do artista resultou em um sobrenome de respeito nas artes visuais do país. Responsável por obras como A fonte e a Cruz Caída, Mário Cravo acolheu grandes artistas. Um deles foi Calasans Neto, de quem foi professor na Escola de Belas Artes.

“Calasans Neto defendia uma estética nova que antagonizasse com o academicismo que vigorava na Bahia. Produziu uma obra soldada à cultura popular. O cordel, por exemplo, lhe serviu como lugar de inspiração”, avalia Ricardo. Neto grafou e gravou animais metamorfoseados em seres mitológicos. Suas cabras e baleias, alados, ganhavam condições de voos e contagiavam o artista e os admiradores. Ele emprestou suas ilustrações a romances como Tereza Batista cansada de guerra e Tieta do agreste, de Jorge Amado. “Sua produção em matrizes de xilogravura, entalhadas em madeira, é considerada a mais representativa da sua trajetória”, ressalta Portela.

Poder da tradição – A possibilidade de compra e venda de objetos históricos tem conquistado um número crescente de admiradores, seduzidos pela tendência retrô e vintage. Mobiliário, prataria, quadros, imagens, lustres, louças, cristais, e arte antiga brasileira estão entre os artigos encontrados no charmoso antiquário de Itamar Musse, no bairro do Rio Vermelho. O espaço é fruto de uma história familiar que começou em 1918, com seu avô libanês. “Ele começou como a grande maioria dos estrangeiros, no comércio de rua e despertou para as antiguidades. Desde cedo me apaixonei pelos objetos de arte que via em casa e na loja”, conta.

“Na seleção, primo pela autenticidade, raridade, qualidade e procedência”, revela. Ele dá dicas para quem quer começar a colecionar ou adquirir uma obra. “Só comprem o que lhe tocam o coração e a alma e seja assessorado por um profissional do ramo. A peça deve ter certificação e ser autêntica, pois só assim será considerada como arte antiga”, adverte o empresário. Ele lembra que antiguidades são peças únicas feitas por artistas e artesãos do século passado. Para ele o principal diferencial do ramo de antiguidades é a segurança no investimento. “É um setor já consagrado, com peças de valor único e particular. O investimento em obras de arte sempre foi e será um dos setores mais seguros”, analisa.

Tipicamente baiana 

Objetos de beleza singular fazem parte da rotina da historiadora e museóloga Simone Trindade, mestre em Artes Visuais. Ela trabalha há 28 anos no Museu Carlos Costa Pinto, que possui a maior coleção de joias de crioulas em museus no mundo. As 130 joias em ouro e 27 pencas de balangandãs em prata foram reunidas pelo colecionador, Carlos Costa Pinto, na primeira metade do século XX, visando preservar a herança cultural da Bahia. “As joias de crioulas foram uma expressão ímpar na joalharia brasileira, uma arte tipicamente baiana. São insígnias de liberdade e poder. Eram reserva, investimento com liquidez, em caso de necessidade”, ressalta.

As peças contam a história de um grupo de mulheres negras e mestiças que, contra todas as dificuldades impostas por uma sociedade brasileira colonial e imperial, conseguiram a sua liberdade e a ascensão social e econômica. A museóloga, Simone Trindade, enaltece o percurso e a história de uma das mais antigas e clássicas mídias, o museu, que apresenta os seus acervos e exposições, elucidando a memória social, fruto do Patrimônio Cultural da Humanidade. “Os museus são guardiães da história, da memória. Visitar os museus é sempre aprender, refletindo sobre nós e o que nos une. Visitar museus é diversão, é deleite estético, é experimentação, é emoção, é despertar”, enfatiza.